Mar Aberto #003
Espaço de publicação semanal de autores independentes e amadores. Envie seus textos, poemas, versos, minicontos e seja mais um a ganhar mar aberto para seus trabalhos!

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Costa Esmeralda

Naquela manhã ensolarada o que parecia um dia comum tornou-se inimaginável, logo que acordou Brenda sentiu o calor e a luz invadir seu quarto, a cortina fina e transparente deixou transpassar toda a luminosidade daquele alvorecer, a jovem estava eufórica para seu primeiro dia de praia, porque ao chegar no dia anterior  não pôde aproveitar, pois já era noite, Brenda e Ana foram dormir fazendo mil planos, o que de certa forma tornou a viagem mais mágica, amanhecendo num lugar novo, diferente, litorâneo, novas sensações e muita expectativa; era a famosa Costa Esmeralda do litoral Catarinense e era a segunda vez que Brenda viajava sem seus pais, a primeira foi na formatura do nono ano e agora ela estava na casa da amiga junto da família de Ana. As duas eram amigas há mais de 5 anos e a alegria de estarem juntas era sempre a mesma, constante, confiável e segura, não brigavam entre si e combinavam em muitas coisas, era a companhia perfeita para a semana de praia. As férias de dezembro eram as mais esperadas pelas duas, que mesmo distantes nos anos anteriores buscavam se falar quase todos os dias. Mas desta vez era diferente, a viagem de fim de ano era com as duas amigas juntinhas e o mundo se abriu, a independência de Brenda e sua maturidade nunca foram testadas desta forma, mas ao lado da amiga ela se viu capaz, de ser feliz, de ser responsável pelas suas próprias necessidades e felicidade. E assim depois de irem a praia, pertinho da casa, a pé, com os pés na areia e a natureza exuberante, as meninas seguiram pela trilha da Tainha, a experiência foi única, de beleza natural admirável. Depois deste caminho até a praia que fica no fim da trilha elas decidiram retornar para mais tarde visitarem parte da Costa Esmeralda.

Assim que repuseram suas energias as amigas junto da família  seguiram rumo às praias de areias claras e animais livres no mar, muitos golfinhos foram avistados, baleias, tartarugas, dentre outros animais da fauna marinha, o calor estava intenso, o dia ia passando e a mágica acontecendo, as meninas se surpreendiam a cada parada, praia de Bombinhas, Mariscal, Porto Belo, praia da Sepultura, onde viram uma variedade imensa de animais marinhos e passearam de barco vislumbrando a imensidão azul da costa Esmeralda, dentre outras belas e inesquecíveis praias. Em um dia seus sentidos vivenciaram muito mais do que seria possível em muito tempo na cidade onde moravam, o interior do estado vizinho, que carregava consigo a tradição e a natureza de montanhas, sem mar, com seus corações prontos para esta aventura as meninas viveram e apreciaram tudo o que era possível e na volta trouxeram emoções e sentimentos que guardavam daquela viagem para sempre e suas almas entrelaçadas por esta amizade verdadeira enriqueceram, evoluíram, e as meninas ficaram ainda mais amigas e aguardavam ansiosas a próxima viagem que certamente tornava a magia de viver uma experiência mais divertida. A viagem acabou, porém tudo que viveram ficou guardado em seus corações.

Silvane Silveira Fernandes

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Lápis

Quando uma criança pega o lápis,
Pela primeira vez,
Pode ter dificuldades em segurar
O objeto que possivelmente achará estanho,
Todavia, esse lápis vai seguir pontilhados
Até conseguir formas letras cursivas,
Diante de um desenvolvimento prematuro.

Em uma existência que possui potência,
Diante dos antepassados,
Que eram embasados em uma história que nunca
Foi empossada, por meio de uma linguagem escrita.
Assim, um dia essa criança foi capaz de escrever
Um livro refletindo o próprio existir
Diante da persistência que tinha ciência.

Márcia Azara

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Gato Escuro

Naquele dia, o sol cumpria seu papel com muito bom humor; em plena energia, ele brilhava — e como brilhava! Através dele, o calor dava as caras; eu o sentia sobre minha pele, a quentura tocava o braço e lentamente subia até a face. O pátio estava um deserto, guardado apenas pelo silêncio sedutor. Nada era mais cotidiano que aquele instante.

Mas então, algo arrebatou minha tarde!

Ao olhar para o lado, tão de repente, lá estava ele — o Gato Escuro. Sobre o telhado, se mantinha, lambendo suas patas, se espreguiçando, e ali repousava.

O dia ainda estava vivo sobre as nuvens, mas sua aparição mudou tudo. Ele era o contraste, ELE era a NOITE! Pois sentia que ele emanava sua própria escuridão — mas era diferente, como uma madrugada sem lua e sem estrelas.

Ele não era maligno, mas fez-me temê-lo. O medo em mim estava tímido, tentando entendê-lo. Às vezes, parecia fingir ser gato; às vezes, parecia que conhecia meus segredos. E, às vezes… seu rosto tão enegrecido se assemelhava ao semblante humano — deveras aterrador.

Mas então, o felino que antes me ignorava voltou sua atenção inteiramente para mim; com isso, os meus olhos congelaram. Não havia mais como desviar — eu estava em transe, estava perplexo. Quanto mais o encarava, mais recebia aquele olhar que me atraía para um desconhecido que eu não planejava conhecer.

Seus pelos pareciam guardar o obscuro em cada fio. Seus dentes pareciam desejar morder a minha normalidade — sem sequer ronronar. Sua presença se aproximava, mas seu corpo mal se movia. E sua sombra não existia, pois ele a era!

O dia ainda estava ao meu redor, ainda existindo, mas, em mim, ele me pôs sobre a noite.

Gato Escuro — quem é você?

Lucas Mercides

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O Caderno Esquecido

Às 15h17, como sempre,
ele deixou mais que café no balcão
esqueceu um mundo inteiro
envolto em couro gasto.

Lívia guardou o objeto
entre fósforos e guardanapos,
mas o caderno respirava,
pulsava, chamava.

O vento empurrava a cidade,
a chuva ensaiava sua queda,
e ela, que vivia de observar,
decidiu finalmente tocar.

“Não sei mais se pertenço a algum lugar.”

A primeira linha não era dele.
Era dela.
Era de todos nós
que esperamos convites
que nunca chegam.

Então ela abriu a porta
que não lhe pertencia
e descobriu que algumas histórias
começam quando roubamos
o que estava perdido.

O vento bateu na janela.
A cidade mudou de cor.
E naquela noite elétrica,
Lívia entendeu:

às vezes, para pertencer,
primeiro precisamos nos perder
nas páginas de outro alguém.

Tony Fernandes


Estes textos fazem parte da seção Mar Aberto, espaço contínuo de publicações da Revista Oceano, Editora Mar de Arte.

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